TRANSCRITO DA REVISTA "ORTODONTIA", ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PAULISTA DE ORTODONTIA - Ano VIII - N 53; JANEIRO/FEVEREIRO, /MARÇO, 1997
 
AS VANTAGENS E LIMITAÇÕES DO TRATAMENTO ORTODÔNTICO PRECOCE 

Professor Dr. Rubens Simões Lima 
Pós Graduado e Mestre em Ortodontia pela USP

 

A Ortodontia e uma ciência que se ocupa da morfologia facial e bucal nas suas diferentes etapas de Crescimento e Desenvolvimento Crânio Facial, assim como do conhecimento, prevenção e correção dos respectivos desvios.

Convencionou-se classificar a Ortodontia em Preventiva, Interceptora e Corretiva3. Na Preventiva pretende-se evitar que uma má-oclusão venha a se instalar; se constitui no conjunto de conhecimentos, atitudes e atividades necessárias para manter o desenvolvimento normal da oclusão dentária. Com este objetivo o Curso de Graduação procura transmitir ao futuro Cirurgião Dentista conhecimentos de biogênese das dentições, dos vários fenômenos que ocorrem durante a fase de crescimento e desenvolvimento da face, e os diversos fatores etiológicos capazes de interferir no desenvolvimento da oclusão. Portanto, cabe ao Clinico Geral atuar na pratica cotidiana como guardião da saúde bucal da criança como um todo.

A Ortodontia Corretiva e o conjunto de conhecimentos, atitudes e atividades necessários para corrigir uma má oclusão instalada na dentadura permanente completa. Cabe ao Especialista em Ortodontia, preparado por um Curso de Especialização devidamente reconhecido pelo Conselho Federal de Ortodontia, faze-lo.

A Ortodontia Interceptadora se constitui no conjunto de conhecimentos, atitudes e atividades necessárias para impedir a progressão de uma má oclusão incipiente nas dentições decídua e mista. O tratamento tem como meta a redução ou eliminação de problemas esqueléticos, dentários o musculares antes da erupção de todos os dentes permanentes. Dentre os objetivos do tratamento podemos citar: melhorar a estética, interceptar hábitos bucais prejudicais, corrigir mordidas cruzadas, criar espaços adequados para a erupção dos dentes permanentes, etc. Como indicação para o tratamento interceptor podemos citar: problemas psico-sociais ligados à má oclusão acentuada, protrusão dos incisivos superiores, discrepância esquelética e ou dentária significante, apinhamento dentário severo, perdas de espaços e más formações congênitas.

O sucesso de um tratamento interceptor executado na dentição mista depende do diagnostico correto, de um plano de tratamento apropriado, da eficiência da mecânica utilizada, da cooperação do paciente, além de um conhecimento profundo do Crescimento e Desenvolvimento Crânio Facial.

Para tanto, o Clinico Geral e ou Odontopediatra deverá ser muito preparado para poder praticar uma boa Ortodontia Interceptora. Via de regra, o Clínico Geral pretende se iniciar na especialidade ortodôntica através da Ortodontia Interceptora por achar mais fácil; ledo engano! O primeiro aspecto a ser levado em consideração por qualquer Cirurgião Dentista que pretenda fazer Ortodontia Interceptora é a determinação do padrão esquelético do paciente a ser tratado, o que e feito através da Cefalometria.

A Cefalometria e a ciência que fracciona o Complexo Crânio Facial com o propósito de examinar como as partes se relacionam entre si e como os seus aumentos individuais de crescimento afetam o total .  Através dela os componentes dentários e esqueléticos do paciente, assim como a severidade do problema serão avaliados em função da sua idade óssea.

A etiologia genética não pode subestimada e o padrão facial tem que ser avaliado para ser levado em consideração no plano de tratamento.

Tomando ciência dos problemas esqueléticos (antero-posteriores, verticais e assimetrias ), dentários  (antero-posteriores, verticais e transversais)  e funcionais do paciente, a aparatologia ortodôntica (ancoragens extra bucal, barras transpalatinas, disjuntores palatinos, mascaras faciais, aparelhos ortopédicos funcionais, bandas e braquetes ortodônticos, etc. será devidamente utilizada dentro dos limites dento-alveolares ou mesmo na tentativa de alterar a direção de crescimento do paciente.

Para ser capaz de adaptar a mecânica ortodôntica ao processo de Crescimento e Desenvolvimento, devemos respeitar as relações entre direções de deslocamento entre as diferentes unidades faciais.

O crescimento vertical dos côndilos mandibulares (CO) e o descenso da fossa glenóide (EO) equilibra o movimento vertical para baixo do maxilar superior (MS) e do processo alveolar superior (AS) e para cima do processo alveolar inferior (AI)  (fig. 1).

As más oclusões dentárias podem estar associadas a dois padrões diferentes além do normal (fig. 1). Quando as contribuições verticais do maxilar superior (MS) e dos processos alveolares superior (AS) e inferior (AI) são menores que as das fossas glenóides (FO) e dos côndilos (CO) a resultante será um deslocamento predominantemente horizontal da mandíbula (fig. 2). Quando as contribuições verticais do maxilar superior (MS) e dos processos alveolares superior  (AS) e inferior (AI) são maiores que as das fossas glenóides (FO) e dos côndilos ( CO) haverá uma rotação mandibular com o deslocamento predominantemente vertical da sínfese (fig. 3). Esse padrão é particularmente desfavorável a qualquer tipo de abordagem Ortodôntica, seja ela corretiva, interceptora ou ortopédica e o seu diagnostico e tratamento separa "os homens dos meninos" como dizia Tweed 4.

Um tratamento ortodôntico interceptor mal planejado em um padrão favorável pode ter resultados aceitáveis, porém, um tratamento mal planejado em um padrão desfavorável será um desastre, dificultando até mesmo uma eventual cirurgia ortognática posterior

A Ortodontia Interceptora não deve ser encarada como mais fácil que a Corretiva. Deve sim, ter um preparo tão profundo e complexo como ela, se o Clínico Geral ou Odontopediatra pretende executar um trabalho digno e eficiente ao seu paciente.

Referencias Bibliográficas

1- GRABER E SWAIN -Ortodoncia Ed. Panamericana 1a edición - 1989
2- JARABAK and FIZZELL - Lightwire Edgewise Appliances - The C.V. Mosby Company  - 2a edition -1972
3- INTERLANDI – Ortodontia - Bases para iniciação - Artes Médicas 3a edição –1994.
4 - CHARLES H. TWEED – Clinical Orthodontics – The C.V. Mosby Company – 1996.