Saúde
Publicado na Revista Vivre, Curitiba/PR, v. 1, n. 7, p. 7-8, out. 2000.


 
 
Professor Gerson Irandir Köhler  
Articulista - na mídia científica e leiga - sobre as áreas de Integralidade     Craniocervicofacial e Monitoração Ortopédica da Face Pediátrica/MOFP. 
Professor do Curso de Pós Graduação em Ortodontia e Ortopedia Facial  
da  Universidade Federal do Paraná. 
 
 
Juarez Köhler 
Responsável pelo Programa MOFP - Monitoração Ortopédica da Face Pediátrica da Köhler - Equipe Clínica Interdisciplinar. 
Professor Convidado do Curso de Pós-Graduação em Ortodontia e Ortopedia Facial da Universidade Federal do Paraná.
 
 
FACES HARMONIOSAS E SAUDÁVEIS,  CRIANÇAS FELIZES
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A moderna Ortopedia Facial Pediátrica - associada interdisciplinarmente a outras especialidades médicas/odontológicas/fonoaudiológicas - pode fazer muito pela normalidade, harmonia de crescimento e beleza da face de seus filhos.

 O padrão de crescimento e desenvolvimento da forma facial da criança, a que chamados de biotipo, é estabelecido a partir de idade muito precoce.
 A Ortopedia Facial e Ortodontia Pediátrica é a  especialidade que trata as crianças - intervindo precocemente, já a partir dos 3 anos de idade - com relação às deformidades, normalmente mais expressivas na região dentofacial (que engloba a face como um todo, aí incluidas também a boca e a posição dos dentes nas arcadas), que podem ocorrer em seu rosto desde o nascimento até o final do  período de crescimento e desenvolvimento, já na adolescência.
 Os denominados "problemas ortopédicos faciais" (muitas vezes conhecidos genericamente por problemas ortodônticos, embora nem sempre sejam restritos somente aos dentes) manifestam-se nas crianças através do desequilíbrio do relacionamento músculo-esquelético que, na maioria das vezes, é produzido em função  e por decorrência de inadequações respiratórias - ligadas  em sua maioria, mas não somente - a questões de ordem alérgica.
 Isto equivale a dizer que crianças portadoras de doenças com quadros alérgicos de vias aéreas superiores são - via de regra geral - sérias candidatas a sofrer do processo progressivo de deformidade facial, que é sempre mais visível, perceptível e observável na região dentofacial, sendo o resultado da alteração da função da musculatura facial e mastigatória que desorganiza, por sua vez, a forma e o contorno dos ossos da face (principalmente a maxila e a mandíbula), fazendo com que os dentes  - em última instância e como verdadeiros reféns de toda uma cadeia de acontecimentos - fiquem mal posicionados em suas arcadas.
 O que acabamos de descrever gera, na verdade, a presença de desvios de ordem ortopédica, que podem  ocorrer na face de crianças, de pré-adolescentes e de adolescentes. É sempre importante deixar bem claro que este fenômeno não ocorre de uma hora para outra. O fato também não costuma - salvo nas exceções teratogênicas, que não são objeto de considerações neste artigo  - ser congênito, isto é, estar presente com a criança ao seu nascimento. Os desvios do processo de crescimento facial infantil são - via de regra geral - de caráter adquirido (a partir de determinado momento de sua vida), evoluindo lenta mas continuadamente, desde idade muito precoce, sendo, por este fato, também passíveis de reversibilidade (normalização e cura) desde que tratados tempestivamente, tão logo detectados e diagnosticados.
 Atualmente, de acordo com o conceito terapêutico interdisciplinar de "monitoração do crescimento facial infantil" - existente para proporcionar abrangência diagnóstica, prognóstica e terapêutica mais ampla , é possível detectar precocemente os fatores adversos que estejam interferindo danosamente e gerando disfuncionalidades e deformidade progressiva no rosto de uma criança.
 A intervenção precoce - que não significa necessariamente uso imediato de aparelhos - tem a capacidade de interferir beneficamente sobre os desvios de crescimento que estejam ocorrendo, objetivando livrar a criança dos efeitos e estigmas reais (a deformidade facial em si) e imaginários (auto-imagem, auto-confiança e auto-afirmação prejudicadas)  resultantes de uma face desarmoniosa e anti-estética, que começe a atuar danosamente sobre a sensibilidade de uma personalidade em desenvolvimento, gerando  complexos.
 Neste sentido - como equipe clínica interdisciplinar (multiprofissional) especializada no conceito terapêutico de "monitoração ortopédica da face pediátrica - MOFP" - temos propiciado aos pais de crianças e pré-adolescentes um programa continuado, na midia (imprensa e televisão) leiga, que visa esclarecer e tornar o assunto mais compreensível, informando  sobre o que deve - e precisa - ser observado por eles com relação ao processo de crescimento, desenvolvimento e maturação progressiva da face de seus filhos.
 O que se percebe - talvez até por falta de uma orientação mais ampla e abrangente  dos especialistas voltados a esta área da saúde facial infantil - é um quase total desconhecimento dos pais com relação ao que seja a normalidade ortopédica facial - e os possíveis desvios e anormalidades - da face de suas crianças.
 Os fatores etiológicos (as causas) que atuam sobre o caráter ortopédico da face - durante todo o longo e continuado processo de crescimento e desenvolvimento pelo qual ela passa - podem ser observados, na verdade, como o  resultado de uma associação de inúmeras situações. Destas, fazem parte, evidentemente, as características herdadas (familiares, raciais, biotipológicas, etc.) combinadas com os potenciais agressores de origem ambiental ligados ao modo de vida da criança, às peculiaridades e suscetibilidades  das mesmas, às doenças que lhe são próprias,  aos seus hábitos comportamentais, aos eventuais acidentes com traumas localizados, à dinâmica familiar e, enfim, ao seu estilo de vida.
 Dos denominados agressores ao crescimento normal da face infantil fazem parte algumas doenças, principalmente aquelas que, como as alérgias de vias aéreas superiores, tem a capacidade de alterar o modo e a qualidade respiratória. A estes juntam-se também os inúmeros e diversos hábitos comportamentais nocivos e viciosos, muitas vezes ligados aos chamados "distúrbios reativos de conduta infantil" próprios de determinados períodos da infância.
 A ausência de correta textura da alimentação da criança é outro fator que pode ser considerado danoso à normalidade do crescimento facial. Alimentos muito moles ou pastosos  induzem a musculatura facial ligada à movimentação da boca  a ficar sedentária, isto é, com falta do exercício necessário.  Isto significa dizer - em outras palavras - que a adequada movimentação da musculatura facial, envolvida primeiramente na sucção (daí a extrema importância da amamentação natural, no seio materno, que se caracteriza por ser uma verdadeira ginástica localizada) e depois na mastigação e deglutição, quando alterada em seu tônus, afeta, por sua vez, a forma e o direcionamento de crescimento dos ossos da face, principalmente daqueles (maxila e mandíbula) que contém os dentes.
 Existem ainda outros fatores - de ordem acidental (sendo  estes de ocorrência relativamente comum no dia-a-dia de crianças que estejam na primeira e segunda infâncias) - que podem alterar, prejudicar e/ou comprometer a normalidade ortopédica de uma face em pleno processo de crescimento e desenvolvimento.
 Os recursos terapêuticos utilizados para propiciar os tratamentos que se façam necessários são, normalmente, multi ou interdisciplinares (também chamados de multi ou interprofissionais) abrangendo especialistas de áreas clínicas voltadas à face, tais como ortopedia facial/ortodontia, otorrinolaringologia e alergologia pediátricas, fonoaudiologia mioterápica, pediatria e odontopediatria entre outras que se fizerem necessárias, na dependência das necessidades que cada pequeno paciente apresente.
 As estimativas epidemiológicas indicam que cerca de de 40% das crianças em geral tem necessidade  e podem ser beneficiadas por programas terapêuticos interdisciplinares de "monitoração ortopédica da face pediátrica" que permitam um acompanhamento clínico que propicie crescimento normal e saudável, sem a presença de indesejáveis deformidades que possam, progressivamente, alterar a beleza, a harmonia e a candura de uma fisionomia infantil.
 Todas estas informações e questões - sobre as quais discorremos - constituem assunto de extremo interesse para os pais de crianças e pré-adolescentes, pois o sucesso final da boa aparência da face de seus filhos depende da indissociável
estímulo-dependência que  somente funções adequadas e normais (de respiração, sucção, mastigação, deglutição, tonicidade muscular facial, fonação, etc.) podem, em conjunto, proporcionar.
 Os leitores que tiverem eventuais dúvidas - e sabemos que normalmente terão, e muitas - com relação ao que esteja ocorrendo, de forma inadequada e danosa, à face de seus filhos, poderão interagir conosco, na busca de informações mais amplas, detalhadas e esclarecedoras, utilizando nossos endereços eletrônicos (e-mail kohler@bsi.com.br e/ou site http://www.spo.org.br/gerson.html).
 

MITOS & VERDADES

 O CRESCIMENTO FACIAL DA CRIANÇA  ESTÁ DA DEPENDÊNCIA APENAS DA HERANÇA GENÉTICA  FAMILIAR ?
Embora isto seja uma crença bastante generalizada, as modernas pesquisas  desta área médica nos mostram que ela não é procedente em sua totalidade. Na verdade o projeto genético da face humana vem codificado para um crescimento e desenvolvimento normal, podendo, no entanto, ser prejudicado e alterado quando de sua interação com os fatores ambientais e comportamentais (doenças, principalmente as que alteram a forma de respirar, hábitos bucais e faciais nocivos e persistentes, modo de vida em geral, acidentes localizados na face, etc.). Resultam desta interação "genética-ambiental"  as anomalias e disfunções, das quais as mais comuns são as dentofaciais (conhecidas também por problemas ortodônticos, pelo fato de envolverem a posição dos dentes nas arcadas).

EXISTE UMA IDADE MÍNIMA PARA TRATAR AS QUESTÕES DENTOFACIAIS ?
Esta parece ser outra questão controversa com relação às questões faciais. Costumamos dizer que as anomalias dentofaciais - tais como quaisquer outras patologias e/ou disfuncionalidades corporais - devem ser tratadas sempre que se fizerem presentes e forem diagnosticadas, independentemente da idade em que isto ocorra. Estudos e pesquisas recentes - dos principais centros de crescimento facial do mundo  - sustentam a premissa de que o tratamento, quando necessário, pode e deve começar a ser efetuado já a partir dos 3 anos de idade, o que não significa, em absoluto, o uso obirgatório imediato de aparelhos corretivos. A idade pré-escolar (dos 3 anos 6 anos) costuma ser, em princípio, a ideal para efetuar uma primeira avaliação sobre o que esteja ocorrendo de inadequado com a face da criança.

PACIENTES COM PROBLEMAS ALÉRGICOS DE VIAS AÉREAS SÃO MAIS SUSCETÍVEIS A ANOMALIAS DENTOFACIAIS ?
Sim, pois o padrão e a qualidade respiratória corretos são considerados a chave do crescimento normal da face humana. Nesse sentido, as questões alérgicas que possam interferir no mecanismo respiratório, gerando a respiração bucal de suplência, atuam sobre o desequilíbrio da função muscular facial (aí incluída também a língua em seu ato de deglutição) podendo causar desvios do crescimento ósseo maxilar e mandibular, que - por sua vez - conterão os dentes superiores e inferiores  em posições desorganizadas e alteradas entre si. A detecção e tratamento de patologias alérgicas  em crianças faz com que o tratamento precoce,  que vai interceptar os desvios de crescimento facial, sejam sempre efetuados em contexto multi/interdisciplinar, do qual fazem parte também, além do ortopedista facial/ortodontista, os médicos otorrinolaringologistas, alergologistas, os pediatras, os fonoaudiólogos e os odontopediatras entre outros.

EXISTEM HÁBITOS INFANTIS NOCIVOS  QUE PODEM INTERFERIR NO CRESCIMENTO DA FACE E NA CORRETA DISPOSIÇÃO DOS DENTES NAS ARCADAS ?
Existem e são muitos. Os mais conhecidos são aqueles ligados aos atos de sucção e mastigação. Chupeta e/ou mamadeira por tempo excessivo, sucção de dedo(s), mordiscamento persistente de objetos e de unhas (onicofagia) e apertamento/rangido noturno de dentes são alguns deles. Outros hábitos nocivos podem ser gerados pela posição inadequada de dormir ou questões posturais impróprias (diurnas) do corpo, principalmente de cabeça e pescoço. Outros, ainda - denominados de distúrbios miofuncionais -  costumam estar diretamente associados à própria forma inadequada de respirar, tais como interpor e/ou pressionar a língua entre ou sobre os dentes, tonicidade da musculatura labial e facial alterada (normalmente flácida). Estes últimos costumam fazer parte do quadro clínico de pacientes portadores de alergias nasais, já citadas anteriormente.
 

AS ANOMALIAS MORFOLÓGICAS E FUNCIONAIS FACIAIS PREJUDICAM A AUTO-IMAGEM, AUTO-AFIRMAÇÃO E AUTO-CONFIANÇA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ?
Sim, e muito, pois os desvios da normalidade facial são classificados como um desfiguramento progressivo da face. O rosto é, na verdade, a área corporal mais suscetível a deformações, que vão correndo lentamente, em geral associadas às funções inadequadas da respiração, sucção, mastigação, deglutição, etc. que estejam sendo feitas de modo inadequado pela criança. Nesta - e principalmente no adolescente em que se transforma na seqüência - os apelidos e as brincadeiras de mau gosto feitas pelos  seus colegas de convivência, principalmente na escola, costumam gerar um grande mal-estar psicossocial, que pode - por sua vez - gerar um comportamento retraído e complexado.



 

    GERSON IRANDIR KÖHLER é especialista em Ortodontia e Ortopedia     Facial, pós-graduado pela Universidade Federal do Paraná. Professor de     Pós-Graduação da UFPR. Secretário-Geral da Associação Brasileira de     Ortodontia e Ortopedia Facial. Diretor-Clínico da KÖHLER  - Equipe      Interdisciplinar voltada à  "Monitoração Ortopédica da Face Pediátrica -     MOFP".  Autor de vários artigos sobre Integralidade Facial, em co-autoria     com sua equipe clínica,  em periódicos científicos e leigos nacionais.      Pesquisador na área clínica de  Fatores Etiológicos  Alteradores do      Crescimento, Desenvolvimento e Maturação Facial

KÖHLER - EQUIPE INTERDISCIPLINAR

·  MONITORAÇÃO  ORTOPÉDICA  DA  FACE  PEDIÁTRICA
·  DISTÚRBIOS  FUNCIONAIS  FACIAIS
·  DESVIOS DO CRESCIMENTO / DESENVOLVIMENTO DENTOFACIAL
·  ALTERAÇÕES DA VOZ E FONAÇÃO
 

DIRETOR-CLÍNICO
DR. GERSON I. KÖHLER, CD, EO/OF

CORPO CLÍNICO
DR. JUAREZ F. W. KÖHLER, CD, EO/OF
DRA. NILSE R. W. KÖHLER, FGA, EMO
DRA. ROSE HELENA C. MILLÉO, FGA, EV
DRA. VIVIANE L. B. KÖHLER, CD
 

e-mail: kohler@bsi.com.br
site: http://www.spo.org.br/gerson.html
 

UM CONCEITO AMPLIADO DE TRATAMENTO DE ANOMALIAS MORFOFUNCIONAIS DA FACE
 
 



Artigos anteriores, dos autores - publicados no Jornal Ortodontia/SPO desde 1997 - podem ser acessados, em sua íntegra, através do site  < www.spo.org.br/gerson.html  >