TRANSCRITO DO JORNAL DA CEMOR -  .......


 
 
 
   
 
 
                                                                                      Dr. João Dulce de Barcelos

  Quando se fala em Ortodontia sob o aspecto de sua divisão, constata-se nas diversas escolas ortodônticas que, para fins didáticos e para efeitos de organização, ela se apresenta com quatro fases:
 1.Fase preventiva
 2.Fase de interceptação
 3.Fase intermediária
 4.Fase reabilitadora
 A primeira fase, chamada “preventiva", abrange a idade de 3 a 6 anos. Na verdade não é possível prevenir ortodonticamente nenhum caso, mas existem procedimentos que, sendo realizados, são capazes de reduzir ou evitar a severidade da maloclusão, já detectada nesta fase.
 A segunda fase, na dentição mista – período de 7 a 10 anos – é geralmente referida pelos ortodontistas como fase de “interceptação”; outros preferem o termo “interceptativa”. Nessa fase intercepta-se ou procura interromper o desenvolvimento da maloclusão ou ordenar a erupção dos dentes, na passagem da dentição decídua para a permanente.

 

A terceira fase, chamada de “corretiva”, na visão de Ricketts é denominada “intermediária”. No sexo feminino essa fase tem início aos 11 anos e termina aos 14, ao passo que no masculino abrange um período mais amplo de 11 a 17 anos. Ela apresenta o crescimento aliado ao tratamento como fator preponderante para o estabelecimento do diagnóstico e elaboração do plano de tratamento.
 Sabemos que o sexo feminino, em média aos 14 anos e 8 meses apresenta o completo crescimento da mandíbula. Por outro lado, o sexo masculino tem sua fase de maturação mandibular mais tardia – por volta dos 17 anos. Na Ortodontia, via de regra, toma-se como ponto de partida para o tratamento a regularização da mandíbula, para depois relacionar a maxila.
Desta forma é lícito pensar que a mulher aos 14 anos e 8 meses e o homem aos 17 anos são considerados esqueleticamente adultos e, portanto, sem crescimento significativo para o tratamento ortodôntico.
 Por fim, a quarta e última fase, conhecida como “reabilitadora”. É totalmente voltada para o ortodôntico tardio e adulto, quando não se pode mais considerar o crescimento ou alguma outra alteração fisiológica significativa, capazes de propiciar alguma ajuda no tratamento. Nesta etapa a meta principal é reabilitar as arcas ou, até mesmo, se for o caso, prepará-las para a fase protética. Podendo ter a finalidade de reabilitar deficiências, melhorar o aspecto estético, reconstruir perdas ou falhas operatórias. Principalmente as que afetam o complexo da articulação têmporo-mandibular, promover acertos ortopédicos e auxiliar no preparo cirúrgico.

 

Para os seguidores da terapia bioprogressiva, o tratamento abrange, preferencialmente, as fases preventiva, de interceptação e intermediária. Em outras palavras, é o tratamento ortodôntico onde o crescimento se encontra presente  e se realiza com a sua ajuda, ou seja, para o sexo feminino de 3 a 15 anos e para o masculino de 3 a 19 anos.
 A idade cronológica é decisiva na determinação das fases do tratamento ortodôntico. Todavia, é preciso lembrar que ela corresponde a 70% da população. Mas se apesar disso, nos casos duvidosos for pedida, além da documentação normal a radiografia de punho e a análise do sesamóide, esse percentual poderá se elevar para 90%. Assim, a idade cronológica associada à idade óssea se constituirá em fator seguro e confiável para a previsão das fases ortodônticas.
Quando se fala em tratamento preventivo ou de interceptação, é comum pensar que se trata de casos simples e tratamento rápido. Vale lembrar que, quanto mais novo for o paciente, mais difícil se torna diagnosticar e planejar. A predição e previsão do crescimento têm grande importância na decisão do ortodontista. O comprimento do arco e sua forma, se há ou não necessidade de uso do extraoral, precisam ser analisados à luz dos exames complementares. Eles apresentam o melhor procedimento de diagnóstico e planejamento. Portanto, é preciso rigor no que tange ao pedido da documentação, devendo ser a mais completa possível. Caso contrário, o ortodontista se obrigará a corrigir mais tarde o erro do tratamento ou se tornará um mero observador, supervisionando, de forma negligente, a maloclusão.
 As maloclusões presentes no tratamento precoce podem ser causadas por fatores dentários ou esqueléticos. Os fatores dentários mais comuns são: trauma na dentadura decídua, permanência prolongada dos dentes decíduos, presença de dentes supranumerários, perda prematura de decíduos, perímetro inadequado de arcos e interposição de lábios.
 Os fatores esqueléticos são: discrepância entre as bases, afecções das vias respiratórias, crescimento excessivo da mandíbula, hipodesenvolvimento da maxila ou associação de ambos os fatores.
 O tratamento ortodôntico precoce precisa ser antecedido por uma rigorosa anamnese, procurando-se reconhecer a etiologia para obter os dados necessários e, desta forma, chegar a um diagnóstico individual, com ajuda do exame clínico, radiográfico e de avaliação da oclusão. É preciso ter em conta também: o número de dente envolvido, as alterações da oclusão e as relações molares e caninas.
 O início do tratamento pressupõe, antes de tudo, a eliminação dos fatores causadores da maloclusão. Se for o caso, devem ser eliminados os hábitos deletérios, resolver as infeções de amígdadas e adenóides e correção dos septos nasais. Nesta situação, o ortodontista precisa receber a ajuda de profissionais que atuam na mesma área, como os otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos.
 Os problemas remanescentes serão tratados com mecânicas próprias para cada caso, destacando-se o uso dos aparelhos: quadriélice, biélice, barra transpalatina, tração extraoral, máscara facial, aparelhos com bandas e bráquetes ou aparelhos ortopédicos.
 Para a Bioprogressiva é fundamental o princípio de que “quanto mais o ortodontista espera para fazer o tratamento ortodôntico, as mudanças estruturais ortopédicas na maxila se tornam mais difíceis de ou menos prováveis de serem reduzidas”.  As classes II e III se tornam mais severas e os problemas ortopédicos irreversíveis para a ortodontia.
 E, a título de conclusão, pode-se afirmar que seis são as metas fundamentais do tratamento precoce: normalização das funções, manutenção e correção dos desvios estruturais, utilização do crescimento, aplicação de forças da oclusão, correção de hábitos e prevenção de tratamentos secundários, se possível.